Para concorrer a uma vaga de emprego no exterior, não é preciso apenas ser aberto a mudanças, ter boa capacidade de adaptação e dominar outros idiomas. Como no Brasil, um dos primeiros passos para chamar a atenção do recrutador é caprichar no currículo.
Mas, engana-se quem pensa que basta adaptá-lo para outra língua com a ajuda do ex-professor de inglês ou daquele amigo que faz cursinho de espanhol. Quando o foco é o mercado internacional, os candidatos devem estar atentos às particularidades culturais de cada país.
Especialistas em Recursos Humanos (RH) garantem, no entanto, que não há razão para elaborar um CV diferente para cada lugar do mundo: a dica é ficar atento a algumas regras universais — comuns em currículos que circulam entre países da América do Norte, Europa e América Latina — que nada têm a ver com o modelo brasileiro. Evitar detalhes nos dados pessoais, contextualizar o mercado de atuação de empresas não globais, direcionar o documento de acordo com a vaga pretendida e anexar uma carta de referências são algumas delas.
Uma vez atento a esses detalhes, o próximo passo é pesquisar o cargo — bem como os perfis da empresa e do país a que o currículo será enviado — para evitar conflitos de informação, duplo sentido ou formalidades (e informalidades) desnecessárias.
— Há países que preferem um estilo enxuto e objetivo, com descrições breves; outros exigem um detalhamento maior. Nos Estados Unidos, por exemplo, não se costuma escrever o estado civil ou a idade: isso, para que o candidato não se sinta discriminado, caso seja reprovado. Em alguns lugares da Europa, por outro lado, essas informações são comuns — explica Patrícia Ceola, sócia da CY Global Language Consultants, consultoria de idiomas com foco em negócios.
As nuances não param por aí. Enquanto para os europeus o background acadêmico tem um peso maior do que a experiência de mercado, para os americanos é o contrário: o currículo funciona como um poderoso instrumento de marketing pessoal.
— Nos Estados Unidos, o perfil comportamental é muito valorizado. Experiências que envolvem voluntariado, empreendedorismo e liderança contam muito. A dica é não economizar linhas para especificar detalhes sobre competências técnicas e resultados atingidos em cada cargo — afirma Samuel Lloyd, gerente de Marketing do Student Travel Bureau (STB), agência de intercâmbio e trabalho no exterior.
É o que o engenheiro civil João Paulo Carvalho, de 37 anos, procurou fazer na hora de elaborar um currículo em inglês para concorrer a vagas internacionais da Ecology and Environment do Brasil, onde trabalha como engenheiro de projetos há seis meses:
— Eu tive dificuldades para usar os termos técnicos adequados para descrever minhas habilidades. Por isso, entendo que vale a pena pesquisar a fundo, se o candidato vai concorrer a uma vaga específica, num determinado local.
Em busca do texto e do formato ideais
Diferentemente do padrão brasileiro, em que as pessoas usam o mesmo currículo para se candidatar a diferentes empregos e empresas, no exterior o ideal é adaptar o documento segundo as características de cada vaga. A dica é o candidato deixar claro o quanto é capaz de realizar as atividades previstas pela função.
Segundo Maria Lúcia Willemsens, diretora superintendente da Cultura Inglesa, o profissional pode e deve incluir, no documento, um briefing que descreva suas principais características e pontos fortes:
— Quem busca um novo cargo de gerência, por exemplo, deve ressaltar sua habilidade de liderar equipes e estimular um ambiente adequado de trabalho. É preciso realçar aptidões e atitudes direcionadas ao objetivo almejado.
Jornalista teve que reenviar currículo em outro formato
Segundo Andreza Santana, gerente de Marketing Sênior da Monster Brasil — empresa americana especializada em recrutamento e seleção, presente em 55 países — o briefing é apenas um dos passos para o profissional que busca uma vaga no exterior convencer o recrutador de que eles devem se conhecer:
— Quem está contratando tem que bater o olho no currículo e identificar uma evolução na carreira. Por isso é tão importante, no CV com foco internacional, esmiuçar as principais realizações. O profissional deve explicar como encontrou e deixou o cargo, apresentando resultados.
A parte de competências e habilidades técnicas é tão valorizada pelo mercado internacional que, em alguns casos, vale a pena o candidato esquecer a estrutura resumida em itens para investir em um texto corrido, mais trabalhado. Foi o que o jornalista Henrique Dias, que trabalha comofreelancer, precisou fazer para concorrer a uma vaga para trabalhar na BBC, em Londres:
— O recrutador da emissora chegou a pedir que eu reenviasse o currículo, explorando mais minhas competências e trajetória profissional.
Talvez o jornalista não esbarrasse com esse problema se tivesse pesquisado um modelo adequado de currículo em sites de consultorias internacionais de RH. Solicitar a revisão do texto a professores do idioma também é recomendável, lembrando que nem sempre é possível confiar nos sites de tradução da internet.
Além de cumprir essas etapas, a analista de marketing Andréa Soares — que está de mudança para Nova York — pretende pedir a colegas americanos, que trabalham com publicidade, para darem uma olhada no formato e no conteúdo do seu currículo. E já pensa em providenciar uma carta de recomendação:
— Minha ideia é colocar no currículo contatos de referência. Soube que em Nova York as pessoas realmente ligam ou enviam e-mail para as empresas anteriores na tentativa de se informar sobre o candidato.
Particularidades lá de fora
- Dados pessoais: Não é preciso informar idade e estado civil, principalmente se o currículo for direcionado ao mercado americano. Já especificar que tipo de visto o candidato tem para trabalhar é fundamental.
- Perfil: Ao invés de apenas listar cargos, o candidato deve investir em uma descrição detalhada de atividades e resultados atingidos.
- Contexto: É importante descrever quais são os mercados de atuação das empresas pelas quais o candidato já passou, afinal, o recrutador de outro país pode não conhecê-las.
- Idiomas: A melhor forma de comprovar o domínio de uma determinada língua é através de certificações internacionais, como TOEFL, Cambridge ou Dele.
- Referências: Anexar uma carta de recomendação ou o endereço do LinkedIn — para que o recrutador conheça a rede de relacionamentos do candidato — pode ser uma vantagem competitiva na seleção.
Fonte: http://www.seculoxximinas.com.br/gestaopessoas/artigos.asp?cod_noticia=40